Análise sobre os ganhos dos lutadores do UFC

Os pagamentos no UFC são sempre muito discutidos nos fóruns de Internet quando as Comissões Atléticas libertam a informação dos valores pagos após os eventos do UFC, irá acontecer na ESPN essa semana. Na ESPN Americana, a série “Outside de Lines” irá analisar os valores recebidos pelos lutadores num programa que incluí uma entrevista com o CEO da Zuffa, Lorenzo Fertitta neste Domingo....
Mesmo que a série não tenha ainda ido ao ar, o presidente do UFC Dana White aumentou o interesse com uma série de posts no Twitter falando sobre supostos erros do programa.
“Eu estou empolgado para esmagar e desacreditar a ESPN e o programa que eles fizeram” foi um dos inúmeros tweets enviados desde quinta-feira por Dana White, que actualmente está no Rio de Janeiro promovendo o UFC 142.
John Barr, o repórter da ESPN que fez e narrou o programa, considera que o programa é equilibrado sobre o assunto. “Nós procuramos olhar qual é a política actual de pagamentos do UFC, e não foi nossa intenção contar a história sobre como o UFC tem crescido exponencialmente” afirmou Barr. “Nós acreditamos que o programa foi bem feito. Nós pegamos em algumas fontes para fazer o programa. O objectivo principal era descobrir quanto esses lutadores estão a ganhar no momento em que a organização assinou o seu primeiro contrato de transmissão com uma grande rede de TV e quando os eventos em PPV estão dando mais lucros do que nunca, não somente os 5 ou 10% dos lutadores TOP’s, mas todos os lutadores”.
A reportagem terá entre 6 a 7 minutos de duração seguido de um debate de 30 minutos durante o programa. Mas existe um desafio inerente nessa história, algo que Barr prontamente admite. Quando investigaram a maioria dos desportos, o salário dos atletas sempre era uma questão pública devido aos acordos colectivos. Tentar descobrir quanto os lutadores recebem e quanto o UFC lucra, no entanto, é uma questão mais difícil.
O UFC é uma empresa privada, e apesar de informarem o público que assiste ao vivo depois da maioria dos seus eventos, isso é somente uma parte das informações financeiras que a empresa torna público. Os enormes ganhos – desde vendas de PPV a direitos de transmissão pagos pelas redes de TV – nacionais e internacionais – até os ganhos com merchandising e patrocínios são todos mantidos em sigilo.
Quando olhamos os salários dos lutadores, apesar de algumas comissões atléticas fornecerem os valores base pagos – particularmente a de Nevada, que é onde fica a casa do UFC e onde eles organizam a maioria dos eventos, muitas comissões não fazem isso.
Mais importante ainda, a maior parte do dinheiro que o UFC paga aos lutadores não é informada. Não precisamos ir muito longe para buscarmos um exemplo, o caso de Alistair Overeem, que derrotou Brock Lesnar na luta principal do penúltimo evento do UFC em Las Vegas.
O valor base pago que foi informado pelo evento foi de $ 264.285,71, depois ele recebeu o bónus pela vitória no valor de $ 121.428,57 de acordo com a Comissão Atlética de Nevada. No entanto um processo movido contra Overeem pela Knock Out Investments, empresa do mesmo grupo da Golden Glory, empresa que gerenciava a carreira de Overeem, revelou o que as planilhas de pagamento da Comissão de Nevada não dizem e que na maior parte das vezes permanece nas sombras.
Overeem recebeu $ 1 milhão simplesmente por ter assinado o contrato com UFC, em parcelas durante suas 3 primeiras lutas. No entanto, Overeem recebeu $ 333.333,33 garantidos pela sua 1ª luta contra Lesnar. Mas Overeem, e virtualmente todos os lutadores principais do UFC transmitidos em PPV, a diferença entre o número divulgado e o número realmente recebido é enorme por causa das comissões sobre as vendas de PPV, que variam muito de acordo com o lutador.
Na entrevista que irá ao ar neste domingo, Fertitta observou que 29 lutadores do UFC têm acordos para receber uma percentagem sobre as vendas de PPV. No caso de Overeem, ele receberá $2 dólares por cada PPV vendido se o facturamento da Zuffa ultrapassar a marca de $ 500.000,00 dólares, o que geralmente acontece depois da venda de 23.000 PPV. Se as vendas de PPV atingirem 800.000 vendas, isso significa um adicional de $ 1.554.000,00 na conta de Overeem, fazendo com que o valor não declarado chegue a $ 2.2 milhões de dólares.
Sem a informação tornada pública por causa do processo, a maioria das pessoas poderia deduzir que Overeem receberia somente $ 385.714,28 por encabeçar um grande evento. Seu adversário, Lesnar, consta como tendo recebido $ 400.000,00 pelo evento, mas na realidade ele também tem a cláusula de percentagem sobre vendas de PPV e já que ele é o maior vendedor de PPV da organização, sua percentagem de bónus deve ser significativamente maior.
No meio do mercado de MMA, entre aqueles que reclamam sobre a enxurrada de números divulgados, geralmente consideram que apenas 10% de todos os ganhos vai para os lutadores. Mas isso é completamente ridículo. O quadro real é verdadeiramente desconhecido, porque virtualmente os números de vendas em PPV, e os valores pagos aos lutadores são desconhecidos.
“O que nós fizemos foi chegar nos lutadores, empresários, algumas pessoas que trabalharam na Zuffa e usar as percentagens de 2010 divulgados pela Standard & Poor’s que informa que 75% dos ganhos vem do PPV e da bilheteria dos eventos ao vivo” afirmou Barr. “Nós tentamos entender todos os números de venda de PPV, o próprio PPV, custos de produção, marketing, todas essas coisas. Foi apenas uma parte. E então comparamos com o que os lutadores ganham. Nós sabemos os números que são divulgados, nós sabemos que tem muito dinheiro pago por fora, portanto, você tem que juntar tudo para ter uma ideia mais realista.
“Portanto nós temos que lidar com faixas. A maioria dos entrevistados falou em números por volta de 10%, outros de 6 ou 7%, alguns ainda mais. Lorenzo afirmou na entrevista que isso é ridículo, e que o valor está bem mais próximo do que a maioria das grandes ligas de desporto paga. Eu não o pressionei sobre esse assunto, mas perguntei se eles estavam pagando perto de 50% e ele disse “Sim”.
É uma diferença bem grande. Numa tentativa de descobrir os ganhos baseados na percentagem de ganhos da Zuffa num evento de 800.000 PPV vendidos, que é mais ou menos o número estimado de vendas do UFC 141, mais $ 3 milhões de bilheteria, usando os salários dos lutadores, bónus anunciado, estimando o valor dos bónus não divulgados, somando com a percentagem de venda de PPV dos lutadores das lutas principais, chegamos numa percentagem de cerca de 28%. No entanto, para o evento do Strikeforce do dia 07/Jan, com uma bilheteira pequena e um roll grande de lutadores para pagar, a percentagem que foi para os lutadores facilmente chega aos 50%.
Tentativas de obter informações com Dana White e Lorenzo Fertitta não foram respondidas, apesar dos inúmeros posts no Twitter de White afirmando que depois da reportagem ir ao ar, ele iria liberar os números reais e o seu lado da história.
“Numa tentativa de Gross [repórter Josh Gross da ESPN.com] e da ESPN de fazer seu trabalho de mercenários, nós estamos prontos para desmenti-los desta vez!” postou White. “Nós vamos acabar com esses mercenários!” ele também escreveu. “Acredite em mim, eu já fiz parte desses trabalhos mercenários da ESPN, por isso que eu não faço mais esses programas e é por isso que nós mesmos filmamos”.
Descobrir o que é um salário justo ou injusto é uma tarefa difícil. Por um lado o UFC como um negócio, é estruturado de forma completamente diferente do que uma associação de 4 equipas, que paga cerca de 50% dos ganhos para os atletas. O UFC também é estruturado de forma completamente diferente do que o Boxe, onde os grandes lutadores recebem bem mais do que os mais bem pagos atletas do UFC. Georges St. Pierre afirmou recentemente que recebe de $4 a$5 milhões por luta, o que provavelmente inclui os patrocínios. O UFC tem custos com a produção e o marketing dos seus eventos, escritórios em vários países com custos de expansão que as organizações de boxe não têm.
Adicionalmente, as vendas de PPV do UFC são muito diferentes do que as do boxe. No boxe, a maioria dos eventos em PPV chega no máximo a 50.000 vendas, no entanto grandes lutas como Manny Pacquiao podem vender mais de 1 milhão de PPV por um preço bem maior do que o de um evento do UFC. Floyd Mayweather vs. Victor Ortiz, por exemplo, fez $78 milhões apenas com as vendas de PPV. Vamos fazer uma simulação, se o UFC 141 foi o maior evento da Zuffa no ano e fez 800.000 PPV que numa conta grossa geraria $36 milhões e se a Zuffa ganhou somente uma percentagem de cerca de 50% disso.
Virtualmente cada evento do UFC fará pelo menos 200.000 PPV, mas mesmo o tecto do maior evento não é tão grande quanto o boxe, em parte porque o nível de mídia que cobre uma luta de boxe como as de Pacquiao e Mayweather é muito maior. Ainda mais, como uma regra geral, o UFC paga melhor os lutadores do undercard, e faz maketing em cima de várias lutas do card ao contrário de apenas uma grande luta.
O modelo de negócios mais próximo ao do UFC é o da World Wrestling Entertainment, que acredita-se paga um valor entre 13-15% do total dos ganhos de seus eventos. Apesar de alguns argumentarem que a WWE é uma forma de performance e não uma luta real – e por isso os “lutadores” não merecem tanto dinheiro – os dólares da WWE vêm dos seus “lutadores”, que fazem um legítimo esforço físico, e que merecem cada centavo que ganham do mesmo jeito que os lutadores do UFC.
Tanto a WWE quanto o UFC empregam centenas de pessoas nos seus escritórios, portanto comparando com a percentagem que eles pagam, compará-los com uma equipa da NFL não é muito justo. Mas por outro lado, assim como o UFC a WWE tem sido um negócio muito rentável construído através do corpo de seus “lutadores” através dos últimos anos.
De 2001 a 2004 o UFC perdeu $10 milhões de dólares. Se você estiver a falar sobre o que os lutadores ganhavam nessa época, que era muito menos do que agora, era significativamente mais do que a organização poderia pagar para se manter viável no longo prazo. O UFC paga mais do que qualquer outra organização de MMA, mas a maior parte das outras organizações de MMA que existiam entraram em colapso devido a problemas financeiros, desde o Affliction até o Elite XC, que pagavam aos lutadores mais do que as organizações ganhavam.
De fato, o UFC quase entrou em colapso por causa das dívidas. Mas a organização mudou a curva de queda em 2005 graças ao acordo com a Spike TV, e desde então vem rodando com grandes ganhos (EBITDA – lucro antes de retiradas, impostos, depreciação e amortização) baseado nas últimas informações de crédito da Standard & Poor’s. No entanto, outros custos permanecem, como a guerra para legalizar o desporto dentro e fora dos EUA (existem ainda 5 estados americanos que não sancionaram o MMA), custos que nenhum outro desporto profissional tem que lidar.
Além do mais, todos que de alguma estão envolvidos com o mundo das lutas sabe de histórias de lutadores não são grandes astros. Não importa se é no UFC ou em outras organizações, aqueles que sonham em se estabelecer ganham pouco dinheiro, dormem na casa de amigos, treinadores, e contraem dívidas tentando fazer suas carreiras decolarem.
“Nós conhecemos inúmeras histórias de tipos com poucos recursos, que ganham 6 – 6 ($ 6 mil garantidos e $ 6 mil de bónus por vitória), 8 – 8 ou 10 – 10 na escala de lutadores iniciantes” afirmou Barr. “Apesar de muitos deles não divulgarem seus nomes, nós ouvimos histórias sobre vários lutadores”.
“Na época em que você tem que pagar seu treinador, um experiente lutador disse-me que um campo de treinamentos custava a ele $10 mil dólares, alguns pagavam entre 7-10 mil dólares e alguns chegam a lutar 3 vezes por ano. Portanto, um campo de treinos barato, somaria $ 21 mil dólares por ano, e isso antes de pagar seu empresário”.
Barr, observou que nenhum lutador do UFC quis dar entrevista, apesar de muitos estarem com vontade de falar. Se tornou padrão nas entrevistas com lutadores de hoje em dia que, diferentemente de atletas de outros desportos, não querer falar em detalhes sequer sobre seus salários formais”. “A verdade é que ninguém quer falar sobre seus ganhos” afirmou Barr. “Nós falamos com toda a gente. Nós falamos com tipos que ganham milhões de dólares, outros que ganham na média e aqueles que ganham pouco”.
O UFC não é um monopólio, existe um sem número de pequenas organizações de MMA por todo o país. Um dos competidores, o Bellator, é propriedade de uma gigante da mídia, a Viacom, que terá um acordo bem interessante com a Spike TV em 2013. Mas o UFC continua no controlo das maiores organizações, ainda mais com a compra do Strikeforce pela Zuffa em Março do ano passado, eles podem agora usar as duas organizações para combater qualquer adversário.
No dia 30/Dez., os 3 lutadores mais mal pagos eram listados com ganhos de $ 8 mil dólares, apesar de quase todos os lutadores do UFC que participam de um evento em PPV ganham bónus de vários tipos, geralmente no valor mínimo de $ 5 mil dólares que o público não fica sabendo. Dos 22 lutadores do evento, 14 ganharam pelo menos $25 mil dólares que não foram informados publicamente.
A maioria dos lutadores do UFC luta 3 vezes ao ano e geralmente pagam uma grande parcela dos seus ganhos para seus empresários e treinadores que a maioria das pessoas que olham esses números fingem não saber.
“Nós actualmente tínhamos intenção de ir a um evento do Bellator em Atlantic City, mas Rebney recuou e nos informou as 11:00h” afirmou Barr. “Ele nem quis escolher uma luta. Ele não quis nem aparecer escolhendo uma luta. Nós achávamos que seria interessante. Eles têm um modelo de negócios diferente, um formato de torneio, e eles pagam os lutadores de forma diferente. Mesmo esse competidor do UFC tem medo de sair do modelo UFC”.
Análise sobre os ganhos dos lutadores do UFC feita por Dave Meltzer, em Yahoo! Sports com tradução de MarceloBreve