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Lucas Headquarters #162 – Bad Blood 2024: Foi bom… mas não foi assim tão bom


Ora então boas tardes, comadres e compadres!! Sejam bem-vindos a mais uma edição de “Lucas Headquarters” aqui no WrestlingNotícias!! À hora que vocês estão a ler isto, está a cair sobre o nosso país um valente temporal, por isso o primeiro apelo que faço é: Protejam-se. Evitem sair de casa, enrosquem-se numa mantinha, façam uma chávena de chá (ou chocolate quente), vejam wrestling e leiam mais um devaneio semanal do vosso Tio Alex. Vão ver que o temporal vai passar muito mais depressa.


As boas notícias são que têm sido revelados cada vez mais detalhes do acordo entre a WWE e a Netflix, e parece que, para já, vamos ter direito à inclusão do RAW e do SmackDown no catálogo português (e no brasileiro também). E isto é interessante realçar por uma razão: Tal como nos concertos dos géneros mais pesados, o fã português acaba sempre por ser a última bolacha do pacote – não nos achamos, somos mesmo. 


A nossa periferia geográfica e a pouca projeção quer do heavy metal quer do wrestling em relação a outras tendências mais mainstream acabam por trair-nos um pouco, de maneira que é sempre fixe que as empresas (ou as bandas) se lembrem de nós, e eu quero acreditar que isto pode ser um grande primeiro passo para que o consumo de wrestling em Portugal volte a estar na ordem do dia. 


Pela primeira vez em muito tempo, decidi aventurar-me a ver um PLE em direto. Normalmente, não costumo fazê-lo, pelo simples facto do meu corpo estar tão habituado à rotina do emprego que me é difícil, para não dizer quase impossível, ficar acordado depois da meia-noite. E sim, eu sei, eu cheiro mais a leitinho do que um puto de 12 anos com dois pelos no peito que se recusou a fumar o primeiro cigarro atrás do pavilhão da escola.


Por mais incrível que vos possa parecer (e até a mim isto me soa um tanto quanto… estranho), o meu interesse em ver o Bad Blood era muito baixo, quase mínimo. Compreendo que a WWE tenha querido dar hype àquilo que era a conclusão daquela que, para mim, é a feud do ano para a empresa. Compreendo que eles quisessem passar a ideia de que aquilo era um grand finale digno da exibição numa sala de cinema (e em boa verdade foi isso e muito mais, mas já lá iremos).


Compreendo que também quisesse, pôr todo um foco de tensão na história que nos contou o Main Event, e que redundava na parceria improvável (e, há poucos meses, inimaginável) entre Cody Rhodes e Roman Reigns. Percebo que sejam as duas histórias principais que envolvem aqueles que são quatro dos grandes needle movers da empresa (o outro é Rhea Ripley), mas eu não consigo deixar de sentir que o nível de hype do primeiro combate e do Main Event não corresponde aos restantes. E acho que isso acabou por refletir-se no que vimos entre um ponto e outro.





E nem vale a pena falar sobre a velha questão do tamanho do matchcard, porque, para já, eu acho que está a ficar um pouco gasta. A WWE tem muitos problemas com que se debater neste preciso momento, e o tamanho dos matchcards nos PLE’s que não os quatro grand slams com certeza não é um deles.


Se é chato ter tantos anúncios pelo meio? Claro que é. Se foi um bocado enfadonho ver a Cathy Kelley fazer todas aquelas reportagens como se estivesse à espera de um convite para uma entrada VIP na festa de Verão da TVI? Obviamente, porque o foco de um PLE tem que ser o wrestling antes de tudo, assim como o que contribui para a ação dentro do ringue, seja promos ou entrevistas/segmentos no backstage. Uma backstage after-party como a que vimos… foi meio forçado.


Ao menos, enquanto os anúncios passam, o nosso cérebro vai tendo tempo para assimilar a ação que acabámos de ver. Se houver sete ou oito combates num matchcard, vamos ter três ou quatro horas de PLE (ou PPV), o nosso cérebro vai deixar de prestar atenção ao fim de hora e meia e vamos chegar ao fim das quatro horas sem nos lembrarmos de metade do que aconteceu. E isto é um problema que urge corrigir, sobretudo na AEW.


Mas voltando ao Bad Blood, tenho visto muitas opiniões algo contraditórias relativamente ao produto final que nos foi apresentado. Há quem diga que até foi um bom PLE, há quem diga que foi assim-assim, que houve uns combates para a História, outros sólidos e outros desapontantes, e há quem diga que o PLE foi mau no seu todo. E estas opiniões vêm de todos os lados – das redes sociais e até do server do Discord do qual faço parte (shoutout Moonsault Collective). E quando vejo toda esta polaridade de opiniões, quando vejo malta a expressar pontos de vista, ainda que contrários, é quando me apercebo que tenho aqui material que chegue para um devaneio semanal.


Querem saber a minha opinião? Eu acho que o Bad Blood foi um PLE que foi bom, mas não foi assim tão bom como muitos andam para aí a dizer. Mais uma vez, acho que isto é resultado de um certo desleixo a nível do planeamento. Houve uma grande quantidade de tempo que foi investida na feud Drew vs Punk e Cody/Roman vs Bloodline 2.0, o que é compreensível, pois eram os principais pontos de interesse da WWE. Mas o resto, o resto ficou um pouco aquém, pelas mais variadas razões que vamos agora explorar. Mas como sempre, comecemos pelo bom. Seria injusto para quem protagonizou o combate do ano se ficassem de fora desta reflexão.


O Hell In A Cell do século





Sim, o combate foi tão bom que eu estou a cometer a loucura de o chamar de Hell In A Cell do século. Confesso-vos, sou um gajo que dentro daquilo que é wrestling, rotula muito facilmente as coisas, e isso é um defeito, aliás, é um perigoso defeito, porque há a tendência de se cair numa agenda demasiado parcial, quase sempre só alimentada pelas nossas preferências pessoais. Mas este combate merece mesmo esse rótulo, por todas as razões e mais algumas.


Primeiro, por toda a história que o antecede. Já aqui o disse várias vezes, não só neste artigo: Drew vs Punk é a feud que define 2024 para a WWE, uma das melhores feuds que a empresa já viu nos últimos anos (a carga emocional chega a ser semelhante, por exemplo, à feud entre Roman Reigns e Jey Uso, nos primeiros tempos do Roman como Tribal Chief) e um perfeito exemplo de como o estilo de booking a longo prazo do Triple H pode resultar na perfeição, porque esta feud corria desde finais de Janeiro e terminou a 5 de Outubro (ou seja, durou nove meses, o que não é muito normal nos dias que correm, sobretudo porque a paciência dos fãs… é um pavio muito curto).




Depois, porque não foi preciso muita coisa para desenvolver a feud. Normalmente, uma feud dita convencional quer promos, confrontos e combates semanais que possam servir de base àquilo que vamos ver no PLE. No entanto, Punk lesionou-se no Royal Rumble, o que levou muita gente a pensar que a feud, por muito boa que pudesse vir a ser, estaria sempre condicionada.


Mas quando se tem um caso destes, em que estamos perante dois wrestlers altamente credíveis no trabalho que fazem (deixemos de fora as polémicas extra-ringue) será que precisamos de pedir assim tanto? Será que temos de ter ali uma lista de exigências prontas a serem cumpridas, e esperar que eles coloquem uma checkmark em cada tópico?


Não, não precisamos. Do que precisamos é apenas de um microfone, que eles tratam do resto. E resultou que nem ginjas, para todas as partes: Drew foi conseguindo, continuamente, tirar reações do público sem que para isso tivesse que se aproveitar do facto de Punk estar ausente, e nós fomos dormir sempre mais descansados porque, pese embora a maleita, continuámos a ver o Punk no nosso ecrã, a dar com o McIntyre em maluco e a adicionar novas camadas a uma história em que a ficção e a realidade se intersetavam magistralmente.




E depois… o combate em si. Eu digo-vos uma coisa, e nunca me passou pela cabeça dizer isto em dezasseis anos de WWE como empresa PG: Quando vi o combate, parecia que estava a ver WWE nos tempos de TV-14. 


Foram usados praticamente todos os tipos de ferramentas das formas mais macabras e repudiáveis possíveis; o sangue escorria pela cara dos intervenientes como nunca eu alguma vez tinha visto; e a psicologia que ambos demonstraram em ringue esteve num nível altíssimo, desde a interação inicial (logo depois da campainha soar), até à crença de que Punk já tinha McIntyre arrumado, quando afinal ainda não era assim, sem esquecer a frustração crescente do Drew em não conseguir arrumar com o Punk. A última vez que eu vi um Hell in a Cell assim tão brutal foi quando o Undertaker e o Triple H nos entregaram uma sequela ao combate da WrestleMania 27 na WrestleMania seguinte. E o facto do Punk ter colapsado e precisado da máscara quando saia em direção ao backstage confirma-o.


Bayley vs Nia: Sólido, mas estranho…





Outro combate que me despertou a atenção, já não de forma tão positiva, foi o de Bayley contra Nia Jax.


Continuo a ir contra a corrente e a dizer que a Nia, em termos de skill, melhorou a olhos vistos, tendo sido das wrestlers mais consistentes da WWE ao longo deste ano (o combate que ela teve contra a Rhea Ripley no Elimination Chamber é prova disso mesmo) e este combate não foi exceção. Mas houve momentos do combate que me pareceram, no mínimo, estranhos e/ou forçados. 


Havia mesmo a necessidade da Nia tentar uma espécie de Hurracanrana, sabendo que não tem leveza suficiente para tentar acertar a move? E aquela espécie de Samoan Drop que acabou por não acertar completamente e parecer quase um botch? Valha-nos a sequência final em que Tiffany Stratton quase fez o cash-in do Money In The Bank, mas o espírito do Undertaker desceu sobre a campeã…





Raquel… who?




“Not because I’m bigger, not because I’m stronger, but because I’m smarter.” Liv Morgan lá cumpriu essa promessa (sabe-se lá como, mas cumpriu), o que não estávamos à espera era que o fizesse às custas de um combate tão mau e com um final tão atabalhoado.


Mas antes de mais nada, vale a pena dizer que este combate se tornou o espelho de uma feud que, muito sinceramente, não entregou nada de jeito até agora. Nunca se percebeu muito bem o alinhamento de ambas as wrestlers nesta feud porque, se puxarmos a fita atrás, a Liv tem todas as razões e mais algumas para ter feito o que fez à Rhea há uns meses atrás, até porque o heel turn da Rhea em 2022 (que culminou na sua entrada nos Judgment Day) foi feito às custas… da própria Liv. No entanto, Dominik traiu-a depois do combate no Summerslam, depois de já a ter impedido de acertar com uma cadeirada na Liv. Em que ficamos, afinal?



Voltando ao combate, como é que o árbitro permitiu que a Rhea Ripley quebrasse voluntariamente as regras e não fez valer a sua autoridade? Só isso já arruinou a dinâmica quase por completo.



E depois, Raquel Rodriguez. Eu não me lembro de um regresso de alguém que não tenha tido qualquer reação do público. Talvez se essa perda de autoridade não tivesse acontecido, o regresso de Raquel poderia ter tido outro impacto. E agora? Onde vai ela ficar no meio disto tudo? Vai ser guarda-costas da Liv e vai integrar-se nos Judgment Day? Será que Dom vai fazer das suas pela terceira vez (o que, para ser sincero, não faria muito sentido nesta altura)? Tantas perguntas, tão poucas respostas.



Resumindo e concluindo, eu acho que o Bad Blood foi decrescendo de qualidade à medida que foi progredindo no card. Se quisermos resumir isto em dois pontos principais, podemos constatar que:


Colocar um dos principais pontos de interesse logo a abrir o PLE foi uma péssima decisão;


O estranho final do combate entre Rhea Ripley e Liv Morgan acabou por “estragar” todo um PLE.


Podíamos até falar do quão bom foi o Main Event, o regresso de Jey Uso e também do The Rock (será que vamos ter Triple Threat na WrestleMania?). Mas depois do que tínhamos acabado de ver, não fizeram mais do que a sua obrigação.






E vocês, o que acharam do Bad Blood? Que momentos destacam pela positiva e pela negativa?


E assim termina mais uma edição de “Lucas Headquarters”!! Não se esqueçam de passar pelo nosso site, redes sociais, deixem a vossa opinião aí em baixo… as macacadas do costume. Para a semana cá estarei com mais um artigo!!


Peace and love, até ao meu regresso!!

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