Lucas Headquarters #164 – Especial Halloween: Cinco gimmicks assustadoras... que não conseguiram assustar ninguém
Ora então
boas tardes, comadres e compadres!! Como estão? Sejam bem-vindos a mais uma
edição de “Lucas Headquarters” aqui no WrestlingNotícias!!
Eis que estamos a chegar à noite mais assustadora do ano, o Halloween, que para uns é sinónimo de
travessura e para outros, de tortura: É que por muito fixe que seja a noite que
antecede o feriado religioso de 1 de Novembro, com toda a sua insanidade,
loucura, profanidade e etc., já toda a gente sabe que assim que raiar o sol do
primeiro dia do penúltimo mês do ano, o processo de descongelamento da Mariah
Carey vai estar completo e a “All I Want For Christmas Is You” vai invadir sem
dó nem piedade as rádios deste país.
Mas enfim, a minha irritação com a natureza cada vez mais
precoce da época mais mágica do ano fica para o mês que vem. Vamos efetivamente
ao que interessa.
Já estamos numa fase em que eu não preciso de vos dizer (até porque vocês também já repararam) que as duas grandes companhias do momento têm abordagens distintas no que toca à forma como apresentam o seu produto: A WWE foca-se mais nas histórias, no lore das personagens, no aspeto “cinemático” da coisa, por assim dizer; a AEW tenta apresentar um produto mais focado no wrestling puro e duro, onde o que se passa em ringue se superioriza ao que nos leva até toda essa ação.
E
digo “tenta” porque isso já não é tão aparente como foi em tempos, parece até
que a AEW está a atravessar uma crise de identidade, o que é normal: Tony Khan
tem tomado algumas decisões questionáveis nos últimos tempos (a última das
quais a de adicionar tempo ao contrato de Rey Fenix quando percebeu que os
Lucha Bros. estavam em vias de ir para a WWE, algo que me pareceu um
“Vinceismo” descarado) e a própria WWE tem apresentado algumas melhorias no seu
produto, ainda que a espaços. Mas isso fica para outro artigo.
É, portanto, bastante natural que, quando falamos em datas
“temáticas” (Páscoa, Halloween,
Natal…), a WWE apresente um produto mais em consonância com a data a celebrar.
Raro é o ano em que a empresa não apresenta uma edição de um dos seus shows semanais que não seja dedicada à
noite das Bruxas ou à quadra natalícia, embora esta última tenha produzido
momentos muito mais memoráveis por comparação ao 31 de Outubro, alguns dos
quais já resultaram em edições especiais deste espaço.
Quando falamos em Halloween,
falamos daquele que é um dos aspetos que cativa uma boa fatia dos fãs de wrestling (incluindo eu próprio), que
são as chamadas dark gimmicks, ou
seja, gimmicks que vão buscar ao
macabro e ao assustador elementos essenciais para o seu desenvolvimento.
Muitas vezes, o que cativa as pessoas em torno das personagens que são encarnadas por certos wrestlers nem sequer é o facto de eles terem elementos macabros (porque há muitas gimmicks que são consideradas bizarras, estranhas e macabras que disso não têm absolutamente nada, por isso não vou falar aqui de Kizarny e wrestlers do género) mas é o facto de terem um lore bastante profundo, que nos ajuda, muitas vezes, a entender o que está por detrás da gimmick.
Esse lore tanto pode ser fictício (como é o caso de gimmicks como a do Undertaker, do Mick Foley na fase inicial do Mankind, ou do Bray Wyatt) como, em certa medida, inspirado pela cultura pop (como é o caso de Sting, que foi buscar inspiração ao filme “The Crow” de 1994), mas, nos últimos tempos, tende, estranhamente, a ter melhor desenvolvimento do que as gimmicks ditas “convencionais”.
Só que isso nem sempre significa que tais gimmicks vão chegar ao relativo sucesso
de todas as que foram citadas neste último parágrafo. E isso pode ter a ver com
vários fatores: Ou porque os wrestlers se
viram metidos em altercações extra-ringue que lhes arruinaram a reputação; ou
porque o seu propósito se esgotou numa feud
ou , ou simplesmente porque tiveram azar e foram recorrentemente
perseguidos por lesões e outros problemas de ordem física.
Muitas dessas gimmicks sofrem,
também, de dois problemas adicionais que, por serem tão óbvios, não destaquei
aqui: Mau booking e incapacidade de
reinvenção. No caso do mau booking, não consigo pensar num wrestler que tenha sofrido mais com isso do que Bray Wyatt (ainda
hoje penso, se ele não tivesse perdido para John Cena na WrestleMania 30, se a
sua carreira teria estagnado assim tanto
na fase do Eater of Worlds – e
a resposta parece-me óbvia) e, quando se fala da falta de reinvenção, pensemos
apenas nisto: Se Mark Callaway não tivesse readaptado e reinventado o
Undertaker às épocas e fases em que a WWE se inseriu ao longo dos anos, será
que a gimmick tinha tido o sucesso
que teve? (outra pergunta de resposta óbvia).
Para hoje, não nos interessa muito divagar sobre estes
tópicos meio circunstanciais. No entanto, creio que, com os vários fatores que
enumeramos, estão reunidas as condições para olharmos para cinco dark gimmicks promissoras que acabaram
por falhar, e tentarmos perceber o que é que falhou. Mas como um artigo destes
nunca pode ser muito sério, a enumeração que vamos fazer hoje é também uma trip down memory lane que nos vai pôr a
todos a exclamar “Eish!” e “Ya! Já
nem me lembrava…”. Para além disso, há muito tempo que não fazemos um top. ;)
Estão prontos para a viagem? Vamos arrancar!!
#5 – Vampiro (WCW)
O nome não podia ser mais autoexplicativo, afinal quando
temos um wrestler chamado Vampiro,
não esperamos que ele vista a pele de um lobisomem, de um zombie, de umEa múmia
ou de outra criatura fantástica qualquer. Esperamos que ele vista a pele de um…
Vampiro. Mais ou menos over-the-top,
isso não interessa, desde que os elementos vampíricos lá estejam…
O que é que nós tivemos?, perguntam vocês, já a pensar que
vem aí uma valente desilusão. Pois bem: Tivemos um entusiasta do movimento
gótico que invadiu o Rock e o Metal no final da década de 90, e que, não fosse
aquela finíssima linha que separa a ficção da realidade, hoje em dia seria o
pai da Rosemary.
Este é um dos casos mais impressionantes de “expectativa vs
realidade”, sobretudo porque tudo apontava que a WCW ia para a frente com
aquela ideia de modo a fazer concorrência a Gangrel, o vampiro residente da
então WWF (este sim, muito mais próximo da conceção original de um vampiro),
mas o resultado final acabou por desapontar em toda a linha, até mesmo no booking, onde ficou para a história uma
curta aliança – depois feud - com Sting,
apropriadamente nomeada de Brothers in
Paint. Logo aí se vê que só podia ser obra de um tal Vince Russo…
Hoje em dia, Ian Hodgkinson, nome verdadeiro, impressiona,
mas por outros motivos: Aos 57 anos, o Vampiro canadiano continua ativo no
mundo do wrestling, embora esteja
semi-retirado devido ao diagnóstico de Alzheimer que recebeu em 2019. Nada que
o impeça de continuar ligado à indústria que tem servido ao longo de quarenta
anos, mostrando que só é derrotado quem desiste de lutar. Só por isto já merece
todo o crédito!
#4 - Abadon (AEW)
Não sendo umas AEW Originals,
Abadon foram um nome que apareceram na AEW ainda dentro do primeiro ano da
empresa. Se na entrada anterior falamos de Vampiros que não eram realmente
vampiros, o mesmo não se pode dizer destas meninas: Um filme com a pegada de
Tim Burton e Abadon como protagonistas, e estava aqui um autêntico sucesso de
bilheteira.
A gimmick prometia imenso, e a AEW finalmente ganhava umas wrestlers capazes de encarnar uma dark gimmick de forma minimamente cativante, algo que a concorrência andava há décadas a experimentar. Mas as lesões e a pressa em fazer de Abadon aquilo que não eram tiraram-lhes o ímpeto, e elas nunca mais se recompuseram.
Logo nos primeiros meses de AEW (Janeiro de 2021) tiveram um
combate pelo AEW Women’s World Championship contra a campeã da altura, Hikaru
Shida; e em Outubro do mesmo ano, um non-title
contra a então campeã Britt Baker. Depois disso, desapareceu
misteriosamente durante dois anos, e quando voltou, onde é que as colocaram? Na
disputa pelo AEW Women’s World Championship, com combate marcado logo para o Collision seguinte contra a campeã
Hikaru Shida, que perdeu. Para não parecer que lhes estavam a enterrar, deram-lhes
outra oportunidade no World’s End pelo TBS Championship de Julia Hart. Nova
derrota.
E agora, o que fazer com elas? Eu diria que pouco ou nada,
porque o mal está feito há muito. Mas pronto, se Tony Khan encontra algum
conforto no facto de pô-las a fazer alguns eventos nas indies e a promover a empresa, antes isso do que desaparecer sem
deixar rasto durante dois anos…
#3 - Seven (ECW)
Numa altura em que o século XX caminhava para o fim e as Monday
Night Wars dominavam o panorama do wrestling, a então WWF apostava forte e feio na
bizarria e na horripilância.
Já tinham o Undertaker, na altura
já mais que bem estabelecido como um dos líderes de balneário e caminhando,
passo a passo, para o estatuto lendário que conquistou; depois, houve o Mankind
– que, para quem não sabe, ainda chegou a morar em boiler rooms (estaria
ele próprio a prever a crise na habitação?), a falar com ratos e a grunhir de
forma estridente, isto antes de ser maioritariamente usado como veículo de
alívio cómico; uns tempos antes houve também o Papa Shango (vulgo Godfather),
Doink The Clown… enfim, não faltava por lá gente assim meio… obscuramente
chapada de farinha, isto no que diz respeito a gimmicks.
Até que, em 1995, um tal de Dustin Rhodes, filho primogénito
de um certo Sonho Americano que há uns anos àquela parte nos tinha explicado o
que eram tempos difíceis, teve uma segunda oportunidade na empresa (ele que já
lá tinha estado num curtíssimo período entre 1990 e 1991). Dustin pegou numa gimmick
algo desconcertante, que misturava a excentricidade da cultura
hollywoodesca com os innuendos sexuais da nossa tão tradicional música pimba. E
assim nascia Goldust.
O facto é que a gimmick prometia imenso, isto porque,
apesar de não ser menos bizarra do que as supracitadas, até se adequava – e de
que maneira – ao tipo de produto que a WWF queria implementar dali para a
frente. Só que, ao longo de quatro anos desta segunda passagem, por entre
mensagens sugestivas, robes compridíssimos, um curto período como babyface, Luna
Vachon como manager e referências a Prince, a sua interpretação como
Goldust nunca teve o resultado esperado, tanto que, em Junho de 1999, Dustin
sai da WWF e regressa à WCW.
Mudança para melhor, pensam vocês? Qual quê! O dano já estava
feito. Em Novembro desse ano, a principal concorrente da então WWF resolve
dar-lhe uma personagem chamada Seven, que nada mais era do que uma
insípida mistura entre as gimmicks de Undertaker e Sting. Mas
desengane-se quem pensar que a bizarria residia só na inspiração para a
personagem.
Claro que, como seria de esperar, tudo isso deu barraca,
primeiro, porque os fãs zombavam forte e feio daquilo em que tinham
transformado o Dustin; e depois, porque a força que o kayfabe tinha na
altura acabou por ditar um triste fim. Pouco tempo depois da estreia (e em
resultado da participação de crianças nessas promo packages) surgiram
preocupações com o facto daquela personagem poder ser confundida com um
pedófilo ou um sequestrador, e a gimmick foi retirada do ar.
Para a curtíssima história de Seven fica uma curiosidade que
muito poucos sabem: Foi nesse contexto que foram pronunciadas pela primeira vez
as três palavras pelas quais o irmão Cody ficaria sobejamente conhecido: The
American Nightmare.
Charles Wright já foi mencionado nesta lista (tanto como Papa
Shango como The Godfather) mas nem o sucesso desta sua faceta como dono de um
clube de strip o impede de figurar neste top, isto porque, meus amigos,
se este top é suposto ser um reflexo da vida, então temos que ser implacáveis
no que toca às críticas.
Anos antes de vermos Godfather, Charles Wright encarnou Papa Shango, um malvado curandeiro que procurava ganhar vantagem sobre os seus adversários através da prática das mais diversas bruxarias e excentricidades.
Mas sejamos honestos: Esta era uma gimmick condenada a
fracassar. Desde logo, porque era parecida à do Undertaker em quase tudo (desde
os mind games até ao controlo das luzes das arenas) mas também porque
este foi atirado para o lago dos tubarões demasiado depressa, tendo sido
colocado numa feud com o Ultimate Warrior que nunca chegou a ter o seu
ponto alto, isto porque, quando estavam prestes a combater um contra o outro, o
Ultimate Warrior foi dispensado da WWF.
A partir daí foi sempre a descer: Papa Shango participou no
Royal Rumble de 1993 para ensinar a um adolescente chamado Santino Marella como
é que se é eliminado do Royal Rumble em 30 segundos, e teve um dark match contra
Tito Santana na WrestleMania IX, que também perdeu.
O que já tinha perdido à altura desse Rumble, era o apoio dos
fãs, já que foi votado como a pior gimmick e o Wrestler Mais Embaraçoso
nos prémios do Wrestling Observer Newsletter relativos a 1992. “Quem
votou nessa altura, bem pode enfiar a cabeça na areia…”, pelo menos assim
pensará Charles Wright.
Tal como, sempre que ordenamos as dark gimmicks que
resultam, um dos lugares no pódio tem de pertencer a Undertaker, quando fazemos
a lista contrária e chegámos ao primeiro lugar, é impossível não pensarmos em
Mordecai e Kevin Thorn, tal não era o hype à volta das gimmicks. E
se é verdade que até aqui só destaquei uma gimmick por entrada, no lugar
mais alto do pódio opto por destacar duas, porque Kevin Fertig teve a
oportunidade que muitos, no seu tempo, não tiveram: Falhar uma gimmick e
ter oportunidade de encarnar outra do mesmo género
A gimmick do Mordecai não tem muito que saber: Basicamente estávamos perante um sacerdote zelota que dizia que o seu principal objetivo era livrar o mundo do pecado. Era suposto ser um gajo do bem, não era?
E a coisa nem começou mal: Despachou o Scotty 2 Hotty na
estreia, atacou o Billy Kidman e o Akio… estava ali qualquer coisa de muito
bom, e a WWE sabia disso, porque o principal plano com esta gimmick era
colocar Mordecai a rivalizar com Undertaker, talvez na WrestleMania 21. Mais
umas quantas promos, uma oração coletiva, um combate com Rey Mysterio, outro
com Hardcore Holly no Great American Bash e, de repente, Mordecai desaparece do
ar quase tão misteriosamente como apareceu. Parece que o homem por detrás da
túnica branca não era tão puritano como a personagem e envolveu-se numa luta
enquanto estava num bar. A WWE, com medo de ser processada, mandou-o para a OVW
(o território de desenvolvimento da altura) e em 2005, despediu-o.
A coisa até encarrilou: Teve uma feud com o Balls Mahoney,
andou numa guerra de casais contra a Kelly Kelly e o Mike Knox, fez parte da
New Breed… tudo lhe estava a correr bem, e inclusive quando Ariel foi
dispensada da WWE, ele foi alvo de um novo push, derrotando Tommy
Dreamer e Stevie Richards, mas depois voltou para a OVW e, passados uns meses,
foi operado à anca, quando a WWE já se preparava para voltar a apostar as fichas
todas nele. Prova disso é que lhe ofereceram um novo contrato, que ele próprio
recusou, saindo da WWE no início de 2009 com um percurso que prometeu muito
mais do que entregou.
Na vossa opinião, alguma destas cinco gimmicks teria
sucesso nos dias de hoje? Se sim, qual e porquê?
E assim termina mais uma edição de “Lucas Headquarters”!! Não
se esqueçam de passar pelo nosso site, redes sociais, deixem a vossa opinião aí
em baixo… as macacadas do costume. Para a semana cá estarei com mais um
artigo!!
Peace and love, até ao meu regresso! Que seja um bom Halloween Havoc!!