Heyman Hustle #19
Após dois meses sem escrever nada, o Heyman decidiu voltar à carga logo com duas crónicas. Com o exame amanhã, não consegui traduzir as duas, mas deixo-vos com esta e traduzo a outra ainda esta semana.
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Se estão à espera que esta crónica seja um daqueles testamentos onde digo que o facto de o Tommy Dreamer ter ganho o título da ECW é a salvação do Extremo, que é a ressurreição de tudo o que está bem do mundo, ou o espírito absoluto da ECW original, então desculpem-me, mas estão a ler a perspectiva errada.
Quando tomei o controlo criativo daquela que era chamada Eastern Championship Wrestling , em Setembro de 1993, aceitei a posição com a determinação de me afastar das filosofias fechadas que eram norma nas federações independentes naquela altura.
"Peguem numa mão cheia de gajos locais," os promotores pensavam, "e ofereçam-nos como alimentos às estrelas vindas dos programas televisivos da WWE ou da WCW – e anos antes vindas da World Class ou da AWA.
O meu objectivo era criar novas estrelas. As nossas estrelas.
Utilizar as estrelas já estabelecidas na televisão para tornarem os gajos da ECW mais importantes.
É um conceito fácil, certo?
Só por estarem no programa do Vince McMahon não significa que devem andar aí “limpar o chão”.
Os nossos gajos são uma comodidade. Por outras palavras, eles estabeleceram um exemplo para toda a indústria seguir, excepto a TNA, que ainda hoje não percebe o
conceito de terem as suas próprias estrelas no seu próprio programa.
*Suspiro*
Eu queixo-me, logo sou. De volta ao Dreamer.
Uma das pessoas que tinha em mente para um grande push era o Peter 'Tazz' Senerchia.
A suplex machine de Brooklyn tinha um parceiro de viagem que trazia para os shows como a sua vítima, e falava muito bem dele.
"Ele chama-se a si próprio Tommy Dreamer," contou-me o Tazz, “e este miúdo consegue
levar um enxerto de porrada como mais ninguém.”
Quando o Tommy chegou à ECW pela primeira vez, ele parecia uma coisa saída de uma má reunião criativa da WCW sobre o babyface ideal.
Calças de ganga, suspensórios, aspecto de "menino bonito". O público de Philadelphia detestou-o.
O ponto de viragem na storyline foi quando o Dreamer perdeu uma Singapore Cane Match contra o Sandman.
Ele levou 10 tacadas com um kendo stick de uma maneira brutal - com o Sandman a dar-lhe com tanta força que só se via sangue e pedaços de pele – e ainda assim continuava a dizer ao Sandman e à sua manager Nancy ‘Woman’ Sullivan: "Obrigado senhor, posso levar com outra?"
A vontade de defender aquilo em que acreditava contra todas as adversidades tornou-se no lema do Dreamer.
Sempre expliquei ao Dreamer que a inspiração para o seu personagem veio do Bruce Willis como John McClane no filme Die Hard.
Um homem normal, levado ao limite, com a única opção de recorrer a métodos extremos para sobreviver.
A fórmula funcionou.
O Dreamer tornou-se no porta-bandeira da ECW, defendendo as virtudes Extremas contra toda a gente.
Na sua rivalidade mais memorável, o Dreamer passou dois anos e meio da sua carreira envolvido numa guerra com o personagem do Scott Levy, o ‘Raven’.
O Dreamer perdeu todos os combates que teve contra ele durante dois anos e meio, até
finalmente o vencer na última noite do Raven na ECW, no WrestlePalooza '97.
Ainda assim, ninguém o chamava vencido, ou “jobber do Raven”. Cada derrota tornava-o mais popular. Ele chegava sempre tão perto, só para ver a vitória lhe ser roubada num piscar de olhos. Nunca conseguia cumprir o seu Sonho.
Houve muitas vezes onde o Raven era deixado inconsciente no ringue quando o Tommy ganhava a luta, mas nunca uma vitória.
O atormentado babyface fazia toda a gente esquecer o “menino bonito” que usava ganga e suspensórios.
Mas na WWE, o Tommy enfrentou um problema diferente.
Enquanto muitos membros da equipa criativa entendiam os fanáticos a gritarem na arena da ECW durante os anos 90, o Vince McMahon simplesmente não entendia o personagem.
"Paul," dizia-me o presidente "o que é exactamente o Tommy Dreamer? Não percebo!"
Isto agravou-se ainda mais nas semanas anteriores ao renascimento da ECW como programa televisivo, em 2006, quando o Vince teve uma epifania.
Mata os originais. Todos eles. Mantemos o Sabu e Rob Van Dam, mas na primeira semana após o Big Show ter ganho o título, o Vince queria que o novo “Heel Heyman” aparecesse na televisão e despedisse publicamente o Sandman, Balls Mahoney, Little Guido, Francine, Al Snow e especialmente o Tommy Dreamer.
Ele declarou: “Está na altura de deixar as pessoas saberem que o conceito está morto, tal como estes gajos”.
Com a ajuda do executivo de talentos, John Laurinaitis, e até um surpreendente apoio da Stephanie McMahon-LeVesque, consegui convencer o Vince a manter os originais na empresa, não porque a ECW precisava deles, mas porque existia valor naqueles wrestlers talentosos.
Enquanto os despedimentos, que eram dados com os já comuns "melhores desejos para os seus projectos futuros" ao Dreamer e companhia eram evitados, a falta de crença do Vince nele continuava.
Conseguia-se ver na televisão nestes últimos três anos. O Tommy Dreamer era um talento para encher chouriços. Nada mais, nada menos.
Mas no inicio deste ano, alguma coisa mudou. O Dreamer jurou que se não ganhasse o título da ECW, saía da WWE.
Enquanto muitos fazem a mesma coisa, era fora do normal um gajo que levava porrada todas as semanas o fazer.
Até quando o Dreamer era “squashado”, só lhe dava mais ímpeto. Finalmente, não só a equipa criativa, como também o Vince repararam nele:
Vejam, o Tommy Dreamer estava no radar do Vince. E não foi simplesmente porque sim. "O Dreamer consegue fazer com que o Mark Henry ou o Khali ou a Hart Dynasty parecerem dominantes. Marquem o combate!"
Mas o facto de o Tommy Dreamer ter trabalhado para chegar a uma posição mais valiosa do que um título que claramente já perdeu o seu valor, fê-lo merecer tudo o que recebeu.
Ser o “foco” do show, especialmente na ECW, é mais valioso do que ganhar o título.
A WrestleMania teve excelentes combates pelos títulos, mas o foco do evento foi o Undertaker vs Shawn Michaels.
A Wrestlemania do ano passado não é lembrada por causa dos combates pelos titulos, mas sim por causa do ultimo combate da carreira do ilustre Nature Boy Ric Flair.
Na World Wrestling Entertainment, "foco" e "estrelato" significam "dinheiro".
Ainda assim, se estão à espera que declare um feriado devido ao Tommy Dreamer ser o campeão da ECW, não estão a seguir o meu raciocínio.
Estou muito orgulhoso do menino-já-não-tão-bonito de Yonkers, New York.
Ele ganhou o prémio mais procurado em toda a WWE. A atenção do Vince.
Tommy, nem o John McClane teria feito melhor!
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Se estão à espera que esta crónica seja um daqueles testamentos onde digo que o facto de o Tommy Dreamer ter ganho o título da ECW é a salvação do Extremo, que é a ressurreição de tudo o que está bem do mundo, ou o espírito absoluto da ECW original, então desculpem-me, mas estão a ler a perspectiva errada.
Quando tomei o controlo criativo daquela que era chamada Eastern Championship Wrestling , em Setembro de 1993, aceitei a posição com a determinação de me afastar das filosofias fechadas que eram norma nas federações independentes naquela altura.
"Peguem numa mão cheia de gajos locais," os promotores pensavam, "e ofereçam-nos como alimentos às estrelas vindas dos programas televisivos da WWE ou da WCW – e anos antes vindas da World Class ou da AWA.
O meu objectivo era criar novas estrelas. As nossas estrelas.
Utilizar as estrelas já estabelecidas na televisão para tornarem os gajos da ECW mais importantes.
É um conceito fácil, certo?
Só por estarem no programa do Vince McMahon não significa que devem andar aí “limpar o chão”.
Os nossos gajos são uma comodidade. Por outras palavras, eles estabeleceram um exemplo para toda a indústria seguir, excepto a TNA, que ainda hoje não percebe o
conceito de terem as suas próprias estrelas no seu próprio programa.
*Suspiro*
Eu queixo-me, logo sou. De volta ao Dreamer.
Uma das pessoas que tinha em mente para um grande push era o Peter 'Tazz' Senerchia.
A suplex machine de Brooklyn tinha um parceiro de viagem que trazia para os shows como a sua vítima, e falava muito bem dele.
"Ele chama-se a si próprio Tommy Dreamer," contou-me o Tazz, “e este miúdo consegue
levar um enxerto de porrada como mais ninguém.”
Quando o Tommy chegou à ECW pela primeira vez, ele parecia uma coisa saída de uma má reunião criativa da WCW sobre o babyface ideal.
Calças de ganga, suspensórios, aspecto de "menino bonito". O público de Philadelphia detestou-o.
O ponto de viragem na storyline foi quando o Dreamer perdeu uma Singapore Cane Match contra o Sandman.
Ele levou 10 tacadas com um kendo stick de uma maneira brutal - com o Sandman a dar-lhe com tanta força que só se via sangue e pedaços de pele – e ainda assim continuava a dizer ao Sandman e à sua manager Nancy ‘Woman’ Sullivan: "Obrigado senhor, posso levar com outra?"
A vontade de defender aquilo em que acreditava contra todas as adversidades tornou-se no lema do Dreamer.
Sempre expliquei ao Dreamer que a inspiração para o seu personagem veio do Bruce Willis como John McClane no filme Die Hard.
Um homem normal, levado ao limite, com a única opção de recorrer a métodos extremos para sobreviver.
A fórmula funcionou.
O Dreamer tornou-se no porta-bandeira da ECW, defendendo as virtudes Extremas contra toda a gente.
Na sua rivalidade mais memorável, o Dreamer passou dois anos e meio da sua carreira envolvido numa guerra com o personagem do Scott Levy, o ‘Raven’.
O Dreamer perdeu todos os combates que teve contra ele durante dois anos e meio, até
finalmente o vencer na última noite do Raven na ECW, no WrestlePalooza '97.
Ainda assim, ninguém o chamava vencido, ou “jobber do Raven”. Cada derrota tornava-o mais popular. Ele chegava sempre tão perto, só para ver a vitória lhe ser roubada num piscar de olhos. Nunca conseguia cumprir o seu Sonho.
Houve muitas vezes onde o Raven era deixado inconsciente no ringue quando o Tommy ganhava a luta, mas nunca uma vitória.
O atormentado babyface fazia toda a gente esquecer o “menino bonito” que usava ganga e suspensórios.
Mas na WWE, o Tommy enfrentou um problema diferente.
Enquanto muitos membros da equipa criativa entendiam os fanáticos a gritarem na arena da ECW durante os anos 90, o Vince McMahon simplesmente não entendia o personagem.
"Paul," dizia-me o presidente "o que é exactamente o Tommy Dreamer? Não percebo!"
Isto agravou-se ainda mais nas semanas anteriores ao renascimento da ECW como programa televisivo, em 2006, quando o Vince teve uma epifania.
Mata os originais. Todos eles. Mantemos o Sabu e Rob Van Dam, mas na primeira semana após o Big Show ter ganho o título, o Vince queria que o novo “Heel Heyman” aparecesse na televisão e despedisse publicamente o Sandman, Balls Mahoney, Little Guido, Francine, Al Snow e especialmente o Tommy Dreamer.
Ele declarou: “Está na altura de deixar as pessoas saberem que o conceito está morto, tal como estes gajos”.
Com a ajuda do executivo de talentos, John Laurinaitis, e até um surpreendente apoio da Stephanie McMahon-LeVesque, consegui convencer o Vince a manter os originais na empresa, não porque a ECW precisava deles, mas porque existia valor naqueles wrestlers talentosos.
Enquanto os despedimentos, que eram dados com os já comuns "melhores desejos para os seus projectos futuros" ao Dreamer e companhia eram evitados, a falta de crença do Vince nele continuava.
Conseguia-se ver na televisão nestes últimos três anos. O Tommy Dreamer era um talento para encher chouriços. Nada mais, nada menos.
Mas no inicio deste ano, alguma coisa mudou. O Dreamer jurou que se não ganhasse o título da ECW, saía da WWE.
Enquanto muitos fazem a mesma coisa, era fora do normal um gajo que levava porrada todas as semanas o fazer.
Até quando o Dreamer era “squashado”, só lhe dava mais ímpeto. Finalmente, não só a equipa criativa, como também o Vince repararam nele:
Vejam, o Tommy Dreamer estava no radar do Vince. E não foi simplesmente porque sim. "O Dreamer consegue fazer com que o Mark Henry ou o Khali ou a Hart Dynasty parecerem dominantes. Marquem o combate!"
Mas o facto de o Tommy Dreamer ter trabalhado para chegar a uma posição mais valiosa do que um título que claramente já perdeu o seu valor, fê-lo merecer tudo o que recebeu.
Ser o “foco” do show, especialmente na ECW, é mais valioso do que ganhar o título.
A WrestleMania teve excelentes combates pelos títulos, mas o foco do evento foi o Undertaker vs Shawn Michaels.
A Wrestlemania do ano passado não é lembrada por causa dos combates pelos titulos, mas sim por causa do ultimo combate da carreira do ilustre Nature Boy Ric Flair.
Na World Wrestling Entertainment, "foco" e "estrelato" significam "dinheiro".
Ainda assim, se estão à espera que declare um feriado devido ao Tommy Dreamer ser o campeão da ECW, não estão a seguir o meu raciocínio.
Estou muito orgulhoso do menino-já-não-tão-bonito de Yonkers, New York.
Ele ganhou o prémio mais procurado em toda a WWE. A atenção do Vince.
Tommy, nem o John McClane teria feito melhor!