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Tomos de Eternidade

Mais uma vez os Tomos regressam para discutir um novo assunto.
Todos sabemos que a WWE é a companhia rei do negócio do Wrestling Profissional, a número 1, a líder de mercado. A WWE está para o wrestling como a Microsoft está para os sistemas operativos, como a Coca-cola para os refrigerantes, etc. Mais do que isso, a WWE possui um autêntico monopólio do mercado, reconhecido por várias personalidades dentro da indústria (o Jim Cornette costuma mencionar esta situação), e apenas comprometido numa pequena medida por companhias como a TNA, ROH ou outras indies (embora verdade seja dita as indies apenas componham uma pequeníssima parte do mercado).

Atendendo a esta situação, são muitos os fans de wrestling que exprimem o seu desejo de que esta seja alterada. Contudo eu acho que muitos destes fans (quase todos praticamente) não compreendem bem o processo de fazer concorrência a algo com a dimensão da WWE. Não estamos a falar duma companhia qualquer, a WWE é um monstro do mundo do entretenimento, com o seu produto divulgado em dezenas de países, com esse mesmo produto comercializado em diferentes formas (os programas de wrestling televisivos obviamente, mas também as roupas, brinquedos, revistas, e toda a mercadoria que a WWE vende). Mais ainda, a WWE em 2009 apresentou resultados finais superiores a 500 milhões de dólares! O 4º maior resultado da história da companhia num ano que ainda foi em geral mau para muitas empresas devido ainda á crise económica!

A WWE possui grande infra-estruturas, reconhecimento mundial, o branding de maior sucesso da história do wrestling profissional, o que permite que para muita gente WWE = Wrestling!
Fazer frente a uma companhia destas não é tarefa fácil, pois é necessário atacá-la nas várias áreas de negócio do wrestling. Atendimento de shows, venda de merchandising, venda de PPVs, audiências televisivas.
Neste momento não existe nenhuma promoção no mundo que consiga obter números semelhantes nestas áreas. A TNA já provou ser capaz de superar os programas menos importantes da WWE nas audiências, mas para chegar até mesmo á Smackdown ainda existe um longo caminho a percorrer. O atendimento nem vale a pena falar, pois os house-shows mais pequenos da WWE ainda têm umas cinco mil pessoas em média em atendimento, número que as outras promoções têm dificuldade em obter para os seus maiores shows. Os PPVs da WWE vendem em geral á volta das 200 mil vendas, e todos sabemos como são as vendas de merchadising.

Vendo todos estes pontos é fácil ver porque razão eu acho que actualmente ninguém pode fazer concorrência á WWE, e ainda mais se considerarmos a dimensão multinacional da WWE, graças a eles promoverem shows um pouco por todo o mundo, algo que mais uma vez apenas a TNA consegue fazer mesmo que numa escala mais reduzida (eles fazem tours anuais em alguns países europeus, mas ficam-se por aí).

Espero ter dado a entender quão hercúlea é a tarefa de fazer concorrência á WWE. É necessário grande investimento de capital e infra-estruturas, mas acima de tudo apresentar um produto que possa ser apreciado pelo maior número de clientes possível, independentemente da idade, sexo ou capacidade intelectual. E pelo meio a promoção deve ser capaz de estabelecer uma imagem, uma marca, um branding próprio e de sucesso, algo que nenhuma outra promoção nos Estados Unidos, a meu ver foi capaz de fazer.
Isto claro leva á questão de qual é o branding da WWE? A resposta é bastante simples na verdade.
Sports-Entertainment.

Podem ter a certeza, Sports-Entertainment é uma criação de marketing, e não um estilo de wrestling como muitos dizem. O core product da WWE é o mesmíssimo da TNA, da ROH, da NJPW, da Dragon Gate, da CMLL, e de qualquer outra promoção de wrestling que alguma vez existiu. Dois ou mais tipos semi-despidos dentro dum ringue, a tentarem provar o seu machismo fingindo lutar um com o outro duma forma por vezes extremamente homo-erótica (e notem que eu estou a ser propositadamente cínico).
O Sports-Entertainment é o invólucro do produto, é o packaging, é a apresentação que é feita do wrestling. Sports-Entertainment foi uma necessidade essencial que o Vince McMahon enfrentou quando decidiu realizar a sua expansão nacional. Ele precisava de vender o seu produto em áreas onde outras promoções já se tinham estabelecido, o equivalente a eu ter uma nova marca de refrigerantes mas tentar fazer concorrência á Sumol, uma empresa já estabelecida e líder de mercado. Para ter sucesso eu preciso de apresentar algo que seja diferente, que a Sumol não tenha.
O que o Vince McMahon fez foi dizer que o produto dele era mais do que wrestling profissional, mais do que dois tipos a supostamente lutarem num ringue. O que ele oferecia era um espectáculo.

No começo esta vertente de espectáculo advinha do uso de celebridades para promover os eventos e combates, mas com o passar dos anos foram-se adicionando melhorias técnicas. As entradas e cenários mais elaborados, o uso de fogo de artificio e outras pirotecnias, os vídeo-packages, o uso de ângulos de câmara panorâmicos que cobrem toda a arena de grandes dimensões. Tudo isto contribui para criar a aura de espectáculo que o Sports-Entertainment procura alcançar. A Raw foi o primeiro show televisivo de wrestling a conseguir criar esta aura devido a ser gravado em arenas (o wrestling televisivo anterior era essencialmente em estúdios televisivos), com quase todas as promos a serem feitas no meio do ringue (anteriormente eram no backstage), o que permitia interacção com o público, a redução dos segmentos de backstage que permitiu que a maior parte da acção decorresse no ringue. Tudo isto, o que nós hoje tomamos como garantido, era uma inovação total em comparação aos métodos anteriores de produzir wrestling televisivo.

A WWE tem por isso uma fórmula de tamanho sucesso que eles alcançaram aquilo que é chamado Brand Name Recognition. A capacidade de vender o seu produto apenas através de name-value (o exemplo do Jeremy Clarkson é que pusermos uma emblema da BMW num prato de vómito, este passa automaticamente a valer 5 libras), independentemente de quem está actualmente no topo.
Baseio isto no facto de que embora a WWE já tenha feito experiências com campeões ainda inexperientes (o Swagger e o Sheamus nos últimos meses, e o Punk em 2008 são os exemplos mais recentes), a audiência média dos programas televisivos não sofreu grandes descidas. Teve algumas variações negativas, mas nunca a descida abismal que por exemplo as Jim Crockett Promotions tiverem em 1987 quando o Ron Garvin conquistou o título ao Ric Flair, e as audiências caíram fortemente.

Por outro lado já vimos que os grandes nomes que saíram da WWE para a TNA não foram capazes de usufruir do poder de draw que tinham tido na E. O Angle em 2006 pouco mais fez do que obter uma elevada buy-rate no primeiro combate com o Samoa Joe, e o impacto da entrada do Jeff Hardy, que à um ano era facilmente a segunda estrela mais popular na WWE, falhou em ter qualquer tipo de resultado na TNA, ao ponto do combate que ele teve contra AJ Styles no Impact teve a audiência mais baixa desse show.
Como se explica estas situações além de que a falta da WWE por detrás destes wrestlers tenha reduzido a sua capacidade de chamar o público? O Jeff tem a condicionante das suspeitas de tráfico de droga, mas duvido que estas tenham obtido a atenção dos media ao ponto da maioria dos fans estar ao corrente da situação.
Esta é ainda outra vantagem que um possível concorrente terá de enfrentar, o poder de nome que a WWE tem, o que lhes dá sempre um certo espaço de manobra para fazer umas coisas novas.

Dito isto tudo voltamos á pergunta inicial.
Haverá actualmente uma promoção capaz de fazer frente á WWE?
Eu ainda digo que não. Nenhuma promoção tem algo que se pareça com um branding eficaz, ou valor de nome considerável, isto sem contar todos os outro factores estruturais e económicos, sem nunca esquecer uma base de fans suficientemente grande. O que existe agora vive em nichos de mercado, com a TNA a conseguir alcançar alguns fans casuais.

Poderá existir uma promoção capaz de fazer frente á WWE?
Perfeitamente possível, mas este seria sempre um projecto a longo prazo (no mínimo com duração de 15/20 anos), tendo já antes da sua fundação definido como missão um dia suplantar a WWE. Esta promoção teria de possuir um plano de desenvolvimento gradual, teria de começar por actuar apenas num número de cidades dentro de um ou dois estados Americanos, e gradualmente expandir-se para outros locais, ao mesmo tempo que estabelece uma sólida base de fans onde já opera. Teria de desenvolver um branding seu (ainda que tirasse alguma coisa do Sports-Entertainment) introduzindo algo que a diferenciasse da WWE, mas que ainda conseguisse chamar atenção do grande público.
Seria uma viagem penosa e demorada, mas esta é a meu ver a única forma de surgir verdadeira competição, e não simplesmente agir noutros segmentos como é feito hoje em dia. Seria necessário os fans de wrestling mostrarem paciência, algo que eles não são particularmente famosos por terem.

Para a semana cá voltarei.

manjiimortal

“ Death is merciless. But let me tell you... Not being able to die is crueller still.”
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