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Lucas Headquarters #187 – As "mentiras inocentes" que o wrestling nos conta


Ora então boas tardes, comadres e compadres!! Como estão!! Sejam bem-vindos a mais uma edição de “Lucas Headquarters” aqui no WrestlingNotícias, a primeira deste quarto mês do ano! A edição desta semana, que nos apanha num mês que vai prometer muita ação (e falaremos dela no seu devido tempo), vai começar com uma confissão: Eu detesto o dia das mentiras.


Eu detesto o dia das mentiras com todas as forças do meu ser. E se é verdade que esta minha confissão está definitivamente relacionada com aqueles que são os valores que fundamentam a base da coexistência humana (como sejam o respeito, a honestidade, a integridade e etc etc.) não é por essa razão que eu desprezo o primeiro de Abril. Ou melhor (e para que não haja quaisquer mal-entendidos) não é APENAS por essa razão.


Vocês sabem a dor de alma que é ir às redes sociais num qualquer 1 de Abril, na esperança de que, atormentados pela desinspiração, vocês encontrem qualquer tema que vos possa convidar a escrever uma reflexão (às vezes séria, às vezes não) e só encontrarem notícias que só pelo título dá para perceber que são mentira?


Sei lá… “Kenny Omega de saída da AEW”, “TKO quer substituir Triple H por The Rock no comando criativo da WWE”, “Miro a caminho da WWE” (esqueçam, afinal esta é verdade e saiu anteontem).



Já não basta que ir às redes sociais seja uma dor de alma nos outros trezentos e sessenta e quatro dias do calendário (ainda para mais agora que a malta aderiu àquela trend meio idiota das fotos ao estilo do Studio Gigi, ou Ghibli, ou lá o que é, eu às vezes dou por mim a pensar que estou a ler um mangá do Oliver e Benji publicado em PDF num site qualquer por um bilionário nerd) senão agora também tem que ser uma dor de alma NAQUELE DIA!! Como se já não existissem dores d’alma suficientes!! (temos mesmo de falar sobre elas?).


Sabem quem é que esfrega as mãos com isto tudo? A malta do Polígrafo SIC. Pelo menos nesse dia eles não ficam em risco de ir para o desemprego. Imaginem o que é que era se as redes sociais fossem todas um antro da verdade, um sítio pautado por partilhas de ideias feitas de forma íntegra, cordial e civilizada. Coitados, a esta altura ainda estavam à procura de trabalho…


De maneira que, olhando para as brincadeirinhas que se costumam fazer no primeiro dia de Abril, eu cá resolvi entrar no espírito, só para deixar bem cunhados os meus dois cêntimos relativamente a esta tão jovial matéria que é a de pregar partidas nesse dia.


Na altura em que começámos a ver wrestling – presumo que, para a esmagadora maioria dos que visitam o site, isso tenha acontecido há cerca de vinte anos, para uns um pouco menos, para outros um pouco mais – todos ouvimos, inevitável e invariavelmente, aquela famosa frase que marcou essa nossa primeira fase de ilusão com esta modalidade:

“O wrestling é falso!”


Pois bem, meus caros comensais do wrestling, venho por este meio informar que quem disse isso… não está certo nem errado. Sim, é verdade que o wrestling tem toda uma componente pré-combinada, onde as histórias são escritas e os resultados são definidos semanas (ou meses) antes dos PLE/PPV, daí a tentação que muitos têm, especialmente aqueles que nunca viram ou que viram e, desencantados, abandonaram o barco, em chamar-lhe pejorativamente “teatro”, ou, se quisermos um termo mais requintado, “arte performativa”.


Mas não é menos verdade que, para essa arte performativa acontecer, tem de haver algum contacto físico, mesmo que muito dissimulado, para levar os fãs a crer que toda essa dissimulação é porradaria à séria. Têm de existir quedas, têm de existir mergulhos, têm de existir empurrões, mordidelas… e os atletas que vão executar tudo isso têm de ser profissionalmente treinados, sob pena de executarem as suas moves de forma errada (o que resulta nos famosos botches) e arriscarem graves – e por vezes irreversíveis – lesões, que podem ter graves consequências para a saúde. No fundo, o wrestling é apenas mais uma das muitas personificações daquela máxima “no risk, no reward”, daí a minha insistência em chamá-lo “desporto”.


Como já devem ter reparado, estes dois últimos parágrafos de constatação do óbvio foram escritos de propósito. Não que eu vos queira tomar por burros – longe de mim tal intenção! – mas o objetivo era ver onde é que, dentro daquilo que faz funcionar a máquina do wrestling, a parte da mentira se concentra, ou, pelo menos, salta mais à vista.


Obviamente que, dentro do que são as histórias e todo o lore que dá corpo ao aspeto pré-combinado desta modalidade, há sempre exageros e perspetivas mirabolantes que, misturadas com mentirinhas inocentes e crenças popularuchas, capturam a nossa imaginação e arrendam um espaço a termo incerto na memória coletiva, até mesmo daqueles cuja paixão pelo wrestling morreu com o fim do primeiro boom da modalidade em Portugal, no final da primeira década do século.


Esses exageros e perspetivas mirabolantes deram origem a muitas aceções e especulações sobre a vida real dos wrestlers ou sobre certos detalhes acerca da forma como o wrestling é mostrado, que ainda hoje muitas pessoas (sobretudo as que viram e, com o tempo, foram deixando de consumir o produto) tomam como verdadeiras. É nessas “mentirinhas” que o wrestling nos conta que se foca o meu artigo de hoje, num exercício bacoco que mistura a nostalgia e o humor.


#3 – Looks like there’s trouble… in Paradise!!




Esta mentirinha surge no lugar mais baixo deste pódio por duas razões: Primeiro, porque pode ser facilmente refutada com uma pesquisa na Wikipédia, e segundo, porque já foi repetida várias vezes com outros lutadores. E, tal como todos sabemos, uma mentira repetida várias vezes não se torna verdade.


Estávamos no início do ano de 2008 quando Kofi Kingston se estreou na WWE. Inicialmente, Kingston era retratado no kayfabe como sendo o primeiro jamaicano a lutar pela empresa, e era apresentado nos vídeos como um tipo porreiro que se deparava com pequenos problemas que aconteciam ao largo das praias da Jamaica, o que originou não só a frase que dá título a esta entrada, mas também o nome do seu finisher.


Kofi Kingston conseguiu ir subindo a pulso na pirâmide da WWE, e pouco mais de um ano depois já era United States Champion, o primeiro título de uma longa lista de honrarias encimada pela conquista do WWE Championship em 2019. Pouco tempo depois de ter perdido o título para The Miz no episódio do RAW de 5 de Outubro de 2009, Kofi Kingston deixou de falar com o sotaque jamaicano e passou a ser anunciado como vindo do Gana, o seu país natal.


O mesmo aconteceu, por exemplo, com Rusev (nka Miro). Inicialmente chamado de Alexander Rusev, foi inicialmente anunciado como vindo da Rússia, facto que a WWE até aproveitou para, em algumas storylines, impregnar um cheirinho a polémica que podia até ter feito com que a coisa descambasse fora da esfera do wrestling (lembram-se do segmento em que Big Show rompeu uma bandeira russa à frente do próprio Rusev? Vá lá que a WWE se lembrou de o pôr a pedir desculpa uma semana depois).





A identidade russa de Rusev durou até meados de 2015, quando, depois da feud com John Cena, Rusev teve um par de discussões com Lana, com quem viria a casar na vida real. A partir do RAW de 25 de Maio de 2015, Rusev passou a ser anunciado como vindo do seu verdadeiro país de origem – Bulgária – e passou a levar a bandeira búlgara para o ringue. Terá sido a WWE a perceber que promover uma identidade falsa não fazia sentido, ou terá querido salvar a sua pele tendo em conta as sempre voláteis e imprevisíveis relações entre líderes dos dois maiores ex-blocos à escala global?





#2 – O mistério do sangue



Uma das coisas que nós, nos primeiros tempos da nossa paixão pelo wrestling, nos perguntávamos (quase) sempre, era se o sangramento dos wrestlers durante os combates era verídico. Os nossos pais diziam-nos sempre que não, que era “ketchup” (pelo menos era assim que a minha mãe me contava) ou então tinta vermelha. E muita gente cresceu a acreditar que era mesmo assim.


O que acontece é que as empresas utilizam uma técnica conhecida como blading, em que uma lâmina (ou parte dela) é usada para provocar feridas aos wrestlers durante os combates para dar a ilusão de brutalidade (obviamente que não é feito de uma maneira que comprometa a saúde dos wrestlers)

Essa lâmina é muitas vezes escondida por entre as fitas ou ligaduras que os wrestlers usam para proteger os pulsos ou as mãos, para que só seja aplicada quando necessário. A tendência para o sangramento excessivo (e as preocupações com a potencial transmissão de doenças através do sangue) têm levado a que esta técnica seja usada cada vez menos, daí que seja cada vez menos comum vermos sangue durante os combates, sobretudo devido à política PG empregue pela WWE.


#1 – Mortos e enterrados?





Outra das mentiras em que nós acreditávamos muito era que os wrestlers que perdiam os Buried Alive Matches ou os Casket Matches… morriam. Pois bem, meus caros amigos que já experimentaram a maravilha da paternidade, e querem iniciar os vossos filhos neste belo desporto, eu estou aqui para vos ajudar e dizer que isso não é bem assim.


Tomando como exemplo um Buried Alive Match, existe um alçapão por entre toda aquela terra onde está a cova onde o wrestler é supostamente enterrado. O segredo aqui é o ângulo da câmara. Quando o wrestler está a ser “enterrado”, cria-se a ilusão de que ele vai, ficar, de facto, soterrado, mas quando o ângulo muda para mostrar o vencedor a derramar terra na cova, o wrestler já saiu por essa porta. Mas a subtileza com que isto é feito é o que nos permite, de certa forma, manter a ilusão de que o derrotado está mesmo a dar as últimas numa cova cheia de terra. E se algum de vós ainda deseja manter essa crença, não leiam este artigo!!

 

Em que outras “mentirinhas inocentes” é que vocês acreditavam quando começaram a ver wrestling? E como é que descobriram que não era bem assim?


E assim termina mais uma edição de “Lucas Headquarters”!! Não se esqueçam de passar pelo nosso site e pelas nossas redes sociais, deixem a vossa opinião aí em baixo… O costume. Para a semana cá estarei com mais um artigo!!


Peace and love, até ao meu regresso!!

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